Os livros de Valter Hugo Mãe destinados à infância e à juventude começam por seduzir pelo formato, pelas ilustrações e pela cor. As dimensões, com 16,5 por 24 cm, únicas ou muitíssimo raras no mercado editorial português, fazem de cada obra um objecto que apela a uma cumplicidade salvadora: aquela em que o leitor, antes da leitura e a cada promessa de releitura, vê a sua imaginação estimulada pela imaginação do texto inscrito no livro que as suas mãos tocam com prazer e avidez. Isto é: com o júbilo e a ambição de quem quer conhecer-se e conhecer o mundo sabendo que nesse gesto se joga grande parte da sua salvação; e percebendo que a palavra literária é esse processo total, sem princípio nem fim, que gera sentidos e caminhos para a vida (sentidos que as imagens, o tratamento dos signos tipográficos e a sua organização no espaço da página, num trabalho de sedução e aprofundamento dos significados do texto, prolongam em certas páginas quase até às fronteiras do texto visual).
A Verdadeira História dos Pássaros (Matosinhos, Booklândia / QuidNovi, 2009) sugere e recorda-nos, a abrir, com a expressividade da linguagem dos mitos, que a literatura é conhecimento, (re)invenção e descoberta do mundo: “Um dia, num tempo já perdido da memória, o vento não suportou mais a solidão quando corria pelos ares a olhar para o mundo lá em baixo. Estava cansado de fazer andar as nuvens e espanar o pó das árvores sem ter companhia”1. O título, à maneira dos folhetos de cordel que começam com o sintagma “a verdadeira história”, é já predição de uma narrativa original. O leitor é conduzido desde o
incipit para a eternidade que a representação
conscientemente mítica de elementos essenciais da Terra oferece durante a leitura. Mas também é movido indelevelmente para as eternidades que hão-de nascer da relação entre quem lê, o texto do livro e a textura do vento e dos pássaros: eternidades que são o resultado de acontecimentos de linguagem, sentimentos e emoções sobre e com a Natureza.
O funcionamento mais profundo deste texto é explicado pela relação que nele se estabelece entre pensamento mítico, pensamento científico e
pensamento lógico da poesia. Numa narrativa com um estatuto mítico definido desde a primeira frase, que coloca a acção num tempo de origens, ou num tempo fora do tempo, as verdades poética e mítica articulam-se com verdades de ordem empírica (natural). A configuração mítica do relato, que apresenta a
verdadeira origem de uma das mais singulares espécies de animais através da referência mitológica a outro elemento da Natureza (o vento), não deixa contudo de colocar os leitores bem dentro de uma plenitude original que a ciência esclarece: a evolução das espécies e a função do vento e da gravidade no voo das aves (“De tanto calcular e observar, era muito fácil concluir que os animais mais pequenos, e até mesmo os mais delicados, talvez fossem os mais adequados para viagens pelo ar. Não seria, com toda a certeza, muito fácil convencer uma qualquer criatura do mundo a levantar voo, mas, se tivesse de o fazer, havia de escolher muito bem quem seria; ele precisava de ter bons argumentos. Foi então que pensou numas galinholas e nuns passarocos que viviam de bico no chão à procura de ervas deliciosas”). A palavra literária, aliás também conatural à narração mítica propriamente dita, é o mecanismo que dá coesão ao texto; no caso, por conseguinte, é o dispositivo e a geometria do voo dos pássaros da narrativa de Valter Hugo Mãe. A primeira frase, eloquente e lapidar, telúrica e metafísica, impõe-se-nos como um indício forte da originalidade do estilo e do conteúdo: é a primeira raiz do texto a prender o leitor, respondendo à sua busca de explicações sobre o mundo e à sua vocação para se inscrever no fundo biológico total que une todos os elementos da natureza, de que a palavra é o operador por excelência da presença do humano.
A mitificação do vento e dos pássaros operada nesta narrativa é um modo de gerar estranhamento em relação a uma evidência: os pássaros voam no e com o vento. Esse estranhamento dá a cada leitor a possibilidade de ver no mais (in)visível as profundezas da vida na Terra; e, a partir da objectividade e da subjectividade das coisas da Natureza, as profundezas da sua vida, até aqui por desvendar ou assumir com consciência.
A natureza das palavras e os elementos da natureza fundem-se, nesta narrativa, num diálogo transcendente e epifânico que é busca da essência do ser humano nas palavras e na Natureza: essência ou pureza da linguagem verbal, essência ou pureza das coisas da Natureza. Linguagem verbal essencial ou pura porque linguagem poiética, de criação, recriação, reconstrução; coisas da Natureza essenciais ou puras porque absolutas e originais em si mesmas, naturais na ordem sinestésica e inaugural do mundo.
O assombro de uma narração que mostra o
interior da natureza do vento e dos pássaros prolonga-se na agilidade e na alegria da frase. Eternidade e realidade, metafísica e quotidianidade, emoção e verdade afirmam-se na diegese e no estilo criando o peso de um deslumbramento que vem da contemplação da dança do vento e dos pássaros: “Quando se convenceu da sua melhor escolha, o vento desceu baixinho junto às ervas e começou a cutucar as criaturinhas com breves abanões. Primeiro muito leve, depois muito mais decidido. As galinholas e os passarocos davam uns saltinhos assim meio atrapalhados e não percebiam o que se passava com o vento naquele dia. (...) Subitamente, sempre tão surpresos, aquelas galinholas e aqueles passarocos levantavam-se do chão com toda a facilidade e, quanto mais usavam as asas, mais elas se musculavam e eram capazes de arrastar melhor o restante corpo pelo ar”. A leitura é por isso espaço de desrealização do mais prosaico: o vento e os pássaros não são apenas vento e pássaros; recobre-os uma elevação própria de deuses e de criaturas de deuses, uma realidade atravessada daquele fantástico tanto mais sublime quanto mais existir no mais real.
Esta paisagem poética, construída sobre uma paisagem real ocultada pelo nosso olhar gasto, desencadeia um olhar novo e intenso sobre a exterioridade e a interioridade da Natureza. Uma narrativa que se aproxima do mito, como dissemos, confirma, no final, que inclui em si mesma os sinais da sua própria verdade: a afirmação da sublimidade de elementos que desde sempre existiram dentro de uma ordem natural. As últimas frases resumem a espécie de tratado poético da evolução natural das “galinholas” e dos “passarocos” que toda a narrativa é: “As galinholas e os passarocos tinham-se transformado em milhares de pássaros diferentes, com feitios e maneiras de voar muito próprias, mas concordavam e diziam todos que o céu era como um campo onde se podia correr”.
O valor mais vital do texto consiste na sua capacidade de revelar a expressividade da Natureza e a expressividade das palavras que despertam no leitor um olhar estético e intelectualizado: esse olhar que nos liga, pela força da linguagem verbal que criamos e nos faz verdadeiramente humanos e naturais, à infância mais pura que é a da comunhão com a Natureza.
Nesta
física, nesta essencialidade da Natureza, há portanto uma
metafísica: na intemporalidade do vento, que contém a memória da origem do nosso universo, inscreve-se a origem dos animais que porventura mais cedo ligaram o ser humano à magia do mundo, que é simultaneamente e sempre a magia da visão das crianças; magia, com a inocência profunda que vem da visão rente às coisas tão feéricas quanto naturais, que a maioria dos adultos não sabe ou já não sabe praticar, por não ter vivido através da literatura, ou por ter esquecido, as origens míticas do mundo e as aspirações mais irredutíveis do ser humano:
“O vento conseguira realizar o seu desejo, tão feliz estava que a partir de então soprou melhor e fez dos pássaros os animais mais mágicos do planeta; os únicos corajosamente capazes de ir tantos metros acima do chão ver como andam as casas e as ruas, os rios e os mares e, entre tudo isso, as crianças e todas as restantes pessoas que ainda guardam a esperança de, um dia, também conseguirem voar”.