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Falas da Terra - Natureza e Ambiente na tradição popular portuguesa
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Objectivos

Tentar conhecer comportamentos literais e simbólicos a nível do imaginário português; tentar entender a atitude ecológica subjacente ao corpus tradicional.

Este projecto investe numa das prioridades dos programas de investigação e educação ambiental: a documentação sobre a visão e percepção da natureza por parte das próprias populações (num âmbito a que se terá convencionado chamar etnoecologia, com variantes de etnobotânica, por exemplo). Em última instância, a forma como a tradição popular portuguesa conta ou canta o seu ambiente inserir-se-ia no âmbito dos estudos denominados por Cheryll Burgess Glotfelty de “ecocriticism”1. Este projecto parece comprovar a fertilidade da pesquisa universitária e da tentativa de criação de saber, ora em dupla, ora em equipa. Palavras de François Jacob:

Porque é que as duplas representaram um papel tão importante? Porque é que esta época e esta disciplina foram tão propícias à formação de duplas? Foi devido ao carácter interdisciplinar desta investigação? Ou à diversidade das técnicas usadas nestas investigações vindas de domínios diferentes? À complexidade das experiências? Tudo isto me parece pouco provável. Muito mais do que o lado experimental, foi sobretudo o aspecto teórico que permitiu às duplas exibir os seus talentos e provar a sua eficácia. Quando uma ciência está a dar os primeiros passos, quando a paisagem ainda está indefinida e aberta é quando existem mais oportunidades para imaginar teorias e construir modelos. Ora, para cozinhar teorias e modelos, é melhor ser dois que um só. O monólogo interior convém menos a este exercício que o diálogo de dois espíritos habituados a cooperar, a debater, a criticar-se um ao outro, a confrontar duas maneiras diferentes de considerar o mundo.2

Justamente pelo seu carácter interdisciplinar, ponto de encontro entre as ciências da natureza e as ciências humanas, a Ecologia surge como disciplina adjunta a este processo. Lançamos o desafio: trata-se de ver nas colecções/recolhas uma pulsão conservadora que faz do parque natural onde os textos se encontram (páginas de um livro) alguma coisa de falso (não chegando a ser fake, fabricado à maneira de?) por lhe ter sido retirado o contexto original mas também qualquer coisa de autêntico por se preservarem textos como formas de vida natural tanto quanto possível sem intervenção humana (sem correcções, adaptações). A literatura tradicional, por vezes tão dificilmente apreensível e catalogável aquando na sua dimensão performativa, ressurge em colecção vedada de vandalismos vindos do exterior, cercada por uma designação genérica, preservada e imunizada no presente para que um trabalho futuro possa vir a ser realizado.

Entendemos a literatura tradicional em volume e em processo de análise como uma forma de ecomuseu, um centro de investigação, observatório e laboratório, ponto de encontro de investigadores de diversas áreas do saber. O quadro de disciplinaridade instalado nas nossas universidades tem sido substancialmente posto em causa. A incapacidade de ver para além dos limites impostos pela disciplina (sem dúvida com importância prática na estruturação de cursos e organizações curriculares), a excessiva compartimentação do ensino e a fragmentação do saber tem deixado por explorar importantes avenidas do conhecimento e tem alimentado o estado de iliteracia ecológica. Só quebrando padrões de disciplinaridade se conseguirá visar a chamada “connective education” (David Orr) essencial para lidar com os complexos assuntos ambientais que não podem ser entendidos no âmbito de uma simples disciplina ou departamento. De facto, se, por um lado, a própria ecologia se constitui na interrelação de saberes, por outro, a alfabetização ecológica cumpre-se educando na capacidade de conjugar “landscape” e “mindscape”, pensando em espaço aberto, reconhecendo as ligações em vez de as desfazer e rupturar. Seis princípios de interligação facilitam a tarefa a quem se envolve no estudo de questões ambientais a propósito da ciência, da técnica ou das humanidades:

  1. Toda a educação é educação ambiental;
  2. Os tópicos e assuntos ambientais são complexos e não podem ser entendidos por uma só disciplina e por um só departamento;
  3. Para os habitantes de uma determinada comunidade, a educação ocorre em parte num diálogo com o próprio lugar e com a sua própria conservação;
  4. A forma como a educação é levada a cabo é tão importante como o seu conteúdo;
  5. A experiência de contacto com o mundo exterior, incluindo o chamado mundo natural, é essencial na compreensão do ambiente e conduz a um pensamento claro e rigoroso;
  6. A educação desafia à construção de uma sociedade sustentável e desenvolve a competência individual para lidar com os sistemas naturais.

Seguimos as propostas programáticas de Dale Jamieson (1996):

  1. O programa de estudo deve ser orientado a partir de um problema. Daí que trabalhemos a partir de questões básicas colocadas na actualidade, nomeadamente, nos media e no discurso científico e tecnológico, por exemplo, a política dos rios, a falta de água, a extinção de determinadas espécies, as alterações climáticas, crescimento populacional, família, parentesco, solidariedade social e adopção. Não deixará de interessar à comunidade conhecer o modo como a tradição tem vivido estas situações quer problematizando-as, quer cantando-as ou contando-as em textos que fazem parte do seu imaginário e que, de tão próximos, acabam por não ser vistos e observados pelos discursos dominantes.
  2. A perspectiva deve ser comparatista. O percurso pelos textos não dispensará finalmente uma ligação ao discurso da biologia, por exemplo. Como tal, contamos com a presença de investigadores capazes de equacionar o problema tal como ele é colocado nas humanidades e no discurso científico.
  3. O conhecimento deve ser substantivo (“substantive knowledge”, segundo Jamieson) e capacitar os investigadores para a prática numa atitude de humildade, de empatia para com o objecto de estudo e para com os informantes sempre com a preocupação de ligar o mundo da investigação bibliográfica e informática à experiência de terreno.

Visa este projecto agir no sentido de proporcionar instrumentos de trabalho para o ensino, tentando prestar serviço à comunidade quer no fornecimento de dados sobre a representação do ambiente no imaginário do povo português, quer na aplicação prática de determinados resultados. Daí a proposta a apresentar na F.C.S.H. de uma pós-graduação em Reservas Patrimoniais: Tradição, Arte e Natureza sob a responsabilidade de Ana Paula Guimarães e Carlos Augusto Ribeiro, com a colaboração de, por exemplo, João Barbosa (Sociedade de Ética Ambiental, membro do IELT), Luís Cancela da Fonseca (orientador do Mestrado em Gestão e Conservação da Natureza – Universidade do Algarve, extensão a Castelo Branco e Açores), Lucinda Fonseca, Francisco Melo Ferreira (Centro de Tradições Populares Portuguesas – Universidade de Lisboa) outros membros do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional e especialistas de diversas áreas do saber.

  • 1The Ecocriticism Reader: Landmarks in Literary Ecology (org. Cheryll Glotfelty e Harold Fromm). University of Georgia Press, 1996.
  • 2O Ratinho, a Mosca e o Homem. Lisboa, Gradiva, 1997.
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Algumas ilustrações neste site da autoria de Danuta Wojciechowska.