Esta linha de investigação visa articular o conhecimento da Literatura Portuguesa consagrada (em particular), da cultura e arte (em geral) com a tradição popular. Assim, depois de colocadas, sistematicamente, questões teóricas relativas ao problema tradição/ modernidade, oralidade/ escrita, memória/ colecção, popular/ popularizante, folclore/ fakelore, kitsch/ pop investiga-se a presença de elementos tradicionais em obras de escritores e artistas do século XIX e XX. Os trabalhos de investigação realizados neste âmbito serão alvo de publicação que dê conta da feição palimpséstica da produção literária e artística sobretudo na sua componente tradicional/ oral/ popular. Encontram-se realizados trabalhos sobre periódicos (1916-26), manuais do Estado Novo, Gomes Leal, Eugénio de Castro, Manuel da Fonseca, José de Almada-Negreiros, José Régio, José Gomes Ferreira, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Teolinda Gersão.
Sob o signo de Jorge de Sena...
Eu não posso senão ser
Da terra em que nasci
... propõe-se já há já alguns anos – em seminário de mestrado (“Tradições e Modernidade”) dirigido por Ana Paula Guimarães – programas de investigação que dêem conta daquilo a que poderíamos chamar “o outro lado da modernidade” (Anteu recuperando forças no contacto com a terra).
Objectivos desse trabalho tal como têm sido enunciados por Ana Paula Guimarães no referido seminário de mestrado:
A raiz exige perfurabilidade e penetrabilidade do solo para que a árvore e as plantas possam alcançar a luz, fonte essencial da vida; pelo contrário, a construção humana exige como fundamento (como alicerce) uma densidade próxima da da rocha e a indissociabilidade do seu leito. (p.82)
O deixar-crescer da culturado solo exige o arado e o bico do arado, o corte e a ruptura das superfícies intactas e estéreis; a vontade de construir aspira à nivelação e consolidação, à faculdade da superfície para carregar e suster: não quer nada com a profundidade e tudo contra a profundidade. (...) Uma vez estabelecidos, os alicerces ocultam-se por detrás da clandestinidade da sua função; não se desvelam senão quando o edifício greta. Opticamente, toda a construção afasta a pretensão de que, em seu lugar, se possa um dia, colocar uma outra coisa ou, inclusivamente, que se possa regressar à ambivalência primeira do solo. Isto é, aliás, o que nos perturba quando se contempla paisagens em que o que cresce está engolido ou mesmo suplantado pelo que está fundado, alicerçado. Parece que nada mais voltará a crescer, como naqueles caminhos que, desde há muito tempo, não são percorridos.
Esta dualidade lê ou pode ler a forma como a Tradição perpassa na Modernidade ou como a Modernidade se relaciona com aquela? E se a Tradição fosse o solo onde enraíza ou se alicerça a Modernidade?
O princípio do enraizamento pressuporia que o texto assinado individual contemporâneo perfura a terra onde se arreiga, dela se alimenta e a partir dela frutifica; ao mais pequeno corte revela a seiva que nele corre; sob a acção da intempérie ou, simplesmente, do tempo, revela donde nasce e como é feito.
O princípio do alicerce, pelo contrário, pressuporia a ocultação do solo sólido e forte sobre o qual se ergue para se impor visível e imponentemente para todo o sempre, isto é, até ao momento da fractura inevitável, reveladora do alicerce fundado sobre (e não através) do solo.
Que autores adoptam que pontos de vista, a perspectiva cultivadora e a perspectiva construtiva? A Modernidade cresce e desenvolve-se a partir da tradição ou constrói-se sobre ela, ocultando os alicerces sobre os quais se funda?
Garrett, Herculano, Junqueiro, Fialho, Nobre, Botto, Pascoaes, Afonso Duarte, Pessoa, Almada mas também Eugénio de Castro, Antero, Torga, Agustina Bessa-Luís, Herberto Helder, Jorge de Sena, Cesariny, Vitorino Nemésio, Almeida Faria, Teolinda Gersão – são apenas alguns dos autores já trabalhados neste âmbito.
Editing e edição de material inédito, de trabalhos de investigação realizados.
As acima referidas obras prontas para publicação (e outras em arquivo decorrentes da referida investigação em seminário de mestrado “Tradições e Modernidade”) seriam dificilmente publicadas sem apoio financeiro; objectivo deste projecto passa pela constituição de um coeso ‘corpus’ e não pela dispersão dos trabalhos em diversas editoras disponíveis.


