Próximas actividades
Outros IELTistas
Apoios
Tradição e modernidade
  • Voltar
Objectivos

Esta linha de investigação visa articular o conhecimento da Literatura Portuguesa consagrada (em particular), da cultura e arte (em geral) com a tradição popular. Assim, depois de colocadas, sistematicamente, questões teóricas relativas ao problema tradição/ modernidade, oralidade/ escrita, memória/ colecção, popular/ popularizante, folclore/ fakelore, kitsch/ pop investiga-se a presença de elementos tradicionais em obras de escritores e artistas do século XIX e XX. Os trabalhos de investigação realizados neste âmbito serão alvo de publicação que dê conta da feição palimpséstica da produção literária e artística sobretudo na sua componente tradicional/ oral/ popular. Encontram-se realizados trabalhos sobre periódicos (1916-26), manuais do Estado Novo, Gomes Leal, Eugénio de Castro, Manuel da Fonseca, José de Almada-Negreiros, José Régio, José Gomes Ferreira, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Teolinda Gersão.

Sob o signo de Jorge de Sena...

Eu não posso senão ser
Da terra em que nasci

... propõe-se já há já alguns anos – em seminário de mestrado (“Tradições e Modernidade”) dirigido por Ana Paula Guimarães – programas de investigação que dêem conta daquilo a que poderíamos chamar “o outro lado da modernidade” (Anteu recuperando forças no contacto com a terra).

Objectivos desse trabalho tal como têm sido enunciados por Ana Paula Guimarães no referido seminário de mestrado:

  • radiografar uma época (séculos XIX e XX) a partir não apenas das atitudes vanguardistas que a consagraram mas também a partir de valores tradicionais
  • ver de que forma interagem tradição e modernidade; avaliar a acção conservadora no processo de criação do novo (“Cada elo da tradição é feito por um revolucionário. Aquilo a que normalmente chamam tradição são 30 ou 40 anos de maus hábitos.” Edgar Varèse nos anos 60)
  • fornecer elementos para a construção de um novo mapa dos séculos XIX e XX não passando apenas por aquilo que foi recebido como novo mas integrando as raízes tradicionais, populares, frequentemente de transmissão oral.
  • pensar o texto na sua relação com textos que o precedem, com os textos apagados sobre os quais se sustenta, com os textos que reescreve, parodia ou cita (citar: etimologicamente, depor, testemunhar, legitimar). A questão do palimpsesto (Genette).
  • avaliar conceitos de autoria, plágio e produção anónima. Em que medida é que o regresso à tradição releva da necessidade ou sede de memória? “A tradição não é um museu de antiguidades mas a fonte da aldeia que dá água a cada geração” (João XXIII).
  • entender a superfície, a periferia, como desvelamento de tensões interiores, reflexo da profundidade; entender a casca, o relevo, o contorno enquanto ilusão ou ocultação de outros sentidos (François Dagognet, Faces, surfaces, interfaces. Paris, Vrin, 1982).
  • “ir ao fundo das coisas”, “não se contentar com a superfície” (Hans Blumenberg, La inquietud que atraviesa el río. Un ensayo sobre a metáfora (1987). Barcelona, Ediciones Península, 1992); deconstruir os dois modos de perspectivar o mundo, o modo de vida, a produção artística humana: a perspectiva cultivadora e a perspectiva construtiva, a metáfora do solo (no qual se enraíza o que cresce, dá fruto e alimenta) e a metáfora do fundamento, do alicerce (sobre o qual se caminha e se edifica, se constrói e se ergue tudo o que há-de ter duração e firmeza). Palavras de Hans Blumenberg:

A raiz exige perfurabilidade e penetrabilidade do solo para que a árvore e as plantas possam alcançar a luz, fonte essencial da vida; pelo contrário, a construção humana exige como fundamento (como alicerce) uma densidade próxima da da rocha e a indissociabilidade do seu leito. (p.82)

O deixar-crescer da culturado solo exige o arado e o bico do arado, o corte e a ruptura das superfícies intactas e estéreis; a vontade de construir aspira à nivelação e consolidação, à faculdade da superfície para carregar e suster: não quer nada com a profundidade e tudo contra a profundidade. (...) Uma vez estabelecidos, os alicerces ocultam-se por detrás da clandestinidade da sua função; não se desvelam senão quando o edifício greta. Opticamente, toda a construção afasta a pretensão de que, em seu lugar, se possa um dia, colocar uma outra coisa ou, inclusivamente, que se possa regressar à ambivalência primeira do solo. Isto é, aliás, o que nos perturba quando se contempla paisagens em que o que cresce está engolido ou mesmo suplantado pelo que está fundado, alicerçado. Parece que nada mais voltará a crescer, como naqueles caminhos que, desde há muito tempo, não são percorridos.

Esta dualidade lê ou pode ler a forma como a Tradição perpassa na Modernidade ou como a Modernidade se relaciona com aquela? E se a Tradição fosse o solo onde enraíza ou se alicerça a Modernidade?

O princípio do enraizamento pressuporia que o texto assinado individual contemporâneo perfura a terra onde se arreiga, dela se alimenta e a partir dela frutifica; ao mais pequeno corte revela a seiva que nele corre; sob a acção da intempérie ou, simplesmente, do tempo, revela donde nasce e como é feito.

O princípio do alicerce, pelo contrário, pressuporia a ocultação do solo sólido e forte sobre o qual se ergue para se impor visível e imponentemente para todo o sempre, isto é, até ao momento da fractura inevitável, reveladora do alicerce fundado sobre (e não através) do solo.

Que autores adoptam que pontos de vista, a perspectiva cultivadora e a perspectiva construtiva? A Modernidade cresce e desenvolve-se a partir da tradição ou constrói-se sobre ela, ocultando os alicerces sobre os quais se funda?

Garrett, Herculano, Junqueiro, Fialho, Nobre, Botto, Pascoaes, Afonso Duarte, Pessoa, Almada mas também Eugénio de Castro, Antero, Torga, Agustina Bessa-Luís, Herberto Helder, Jorge de Sena, Cesariny, Vitorino Nemésio, Almeida Faria, Teolinda Gersão – são apenas alguns dos autores já trabalhados neste âmbito.

Projecto de publicação

Editing e edição de material inédito, de trabalhos de investigação realizados.

As acima referidas obras prontas para publicação (e outras em arquivo decorrentes da referida investigação em seminário de mestrado “Tradições e Modernidade”) seriam dificilmente publicadas sem apoio financeiro; objectivo deste projecto passa pela constituição de um coeso ‘corpus’ e não pela dispersão dos trabalhos em diversas editoras disponíveis.

© 2008 IELT. Todos os direitos reservados. | Pedido de informações | Webmaster
Algumas ilustrações neste site da autoria de Danuta Wojciechowska.