é uma pequena gazela cujos dedos não param entre os fios
como o pensamento no poema de amor.
Alegres sobre o tear os seus dedos brincam com a alançadeira
como os dias com a esperança.Arrusafi, poeta árabe do Al- Andaluz
O projecto BORDADEIRAS, filiado no filme de Éléonore Faucher (2004) - ecoando o projecto OS RESPIGADORES E A RESPIGADORA, por sua vez parente do filme de Agnès Varda (2000) - intenta recolocar a questão do bordado, do fio, da tecelagem, do tecido, actividade artesanal relacionada com a alta costura (Lacroix). Tecer, bordar, fiar, curtir materiais desde o cultivar e (re)colher até à finura do trabalho final... são gestos quotidianos, simples, óbvios (de resposta a encomenda) que não são realizados apenas para conservar imagens do passado em actos turísticos (souvenirs) mas cumpridos numa actuação empenhada, fundida na vida, e da qual inúmeros exemplos fornecidos pela arte contemporânea atestam o seu vigor e persistência.
Fios da existência, tecidos e textos vividos empenhadamente. Filhas e pais, mulheres e homens, mães e filhos: relações urdidas em tramas particulares.
Preocupar-nos-á doravante continuar a estudar as subtis relações entre tecer e escrever, urdir e canta(rola)r, fiar e contar um conto, um nó, vários nós numa teia urdida com calma, sabedoria e apreço pelo resultado final, um remate com pontos bem 'arrematados'.
A relação do gesto do 'bordado' com os acontecimentos da vida vigora no referido filme como subjaz na lírica, no conto (chamados 'popular') à medida de Penélope, a tecedeira tecedora da sua própria sobrevivência.
Texto (do latim textu, tecido)
Tecer (do latim texere) - fazer (teia ou tecido) com fios; urdir, tramar.
Tramar - passar (a trama) por entre os fios da urdidura; tecer, entrelaçar, entecer, entrelaçar. Armar, maquinar, urdir: tramou toda a história, pretendendo iludir pessoas ingénuas. Intrigar, enredar.
Trama (do latim trama) - o conjunto dos fios passados no sentido transversal do tear, entre os fios da urdidura. Enredo, intriga, teia. Intriga.
Intriga - enredo.
Intricar (do latim, intricare) - enredar, emaranhar, embaraçar.
Urdir (do latim ordire, por ordiri, 'começar o trabalho da tecelagem'). Dispor os fios da tela. Tecer, entrelaçar os fios de (a teia). Preparar o entrecho de. Preparar cavilosamente; enredar, tramar, maquinar. Imaginar, fantasiar.
Urdidura - o conjunto de fios dispostos no tear paralelamente ao seu comprimento, e por entre os quais passam os fios da trama.
Enredo - intriga. Manha, ardil. Mentira. Conjunto dos incidentes que constituem a acção de uma obra de ficção; entrecho, intriga, urdidura, fábula.');
Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 2ª ed. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1986.
Texto quer dizer tecido; mas enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu acabado, por detrás do qual se conserva, mais ou menos escondido, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia generativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido - nessa textura - o sujeito desfaz-se, como uma aranha que se dissolvesse a si própria nas secreções constitutivas da sua teia.
Roland Barthes, O Prazer do Texto. Lisboa, Edições 70, 1974.
A imagem de um tecido sobrepõe-se persistentemente ao conceito de texto, num processo analógico que influencia tanto o discurso comum como o discurso dos teóricos da literatura. Essa apropriação expressiva conjuga elementos, como o do fio da meada e o do discurso, a urdidura ou processo de construção de um objecto e de um texto por quem tece/ escreve, o cruzar dos fios do enredo, a âncora [Âncora: marca de linhas de bordar!] dos nós estabilizadores da teia, o conjunto de presenças e ausências, de matéria e de espaço, de acções e de pausas.
Ana Maria Freitas, A Aranha e o Pescador - Malhas de duas Redes. Lisboa, Apenas Livros/IELT, 2005.
Todos os IELTistas/IELTsadores fiam, tecem, cosem ou bordam fios de linha/ tinta. Alguns reflectem sobre o fio que enrolam e enredam:
Ana Maria Freitas, BI da Aranha. Lisboa, Apenas Livros/IELT, 2002.
Maria Teresa Meireles, Elementos e Entes Sobrenaturais nos Contos e Lendas (prefácio de Nuno Júdice). Lisboa, Vega, 1999; A Partilha da Palavra nos Contos Tradicionais. Lisboa, Apenas Livros/IELT, 2005.
Ana Morais, BI do Carneiro. Lisboa, Apenas Livros/IELT, 2006.
Paula Sande, Afecto à Literatura e à Cultura no contexto escolar da pós-modernidade (dissertação de doutoramento, 2006)
Ana Paula Guimarães, Nós de Vozes - Acerca da Tradição Popular Portuguesa (2000) 2ª ed. Lisboa, Edições Colibri/IELT, 2008.
Cramol, Vozes de Nós, CD - finais de 2007 (escolhendo para título um avesso do livro Nós de Vozes, reeditado na colecção "a IELTsar de vai ao longe" a par e passo, comemorando juntos o 20º lugar nesse passeio por projectos e percursos entre livros, CDs, uns para gente crescida e culta, outros para gente mais pequena, culta também).
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