Estes muitos projectos e propostas (realizados e a realizar por membros do IELT, frequentemente em contacto ou com colaboração de especialistas de outras áreas do saber e de outras instituições) visam revitalizar e revalorizar culturas populares, silenciadas e silenciosas, culturas que, nas palavras do sociólogo João Teixeira Lopes, “se autocensuram por vergonha cultural”.
Na nossa experiência de campo ora deparámos com a interiorização de um interdito, ora insistentemente com a impressão de “sem-valia”.
– Mas que anda você a fazer estudando estas coisas? Isto interessa a alguém?
Convenhamos. Interessou sobremaneira à política cultural do Estado Novo a recuperação destas matérias referenciadas então como suporte da identidade nacional, na sua feição tão pitoresca quanto imperialista. Palavras como folclore e etnografia ficaram doravante contaminadas (por isso se justifica o nosso título "Tradição e Modernidade" para um projecto afim ao denominado "Folclore e Literatura" pela mão de Wolfgang Mieder, na Universidade de Vermont, E.U.A.1).
Sobrevive o interesse mais ou menos caseiro, recentemente também académico, pelo estudo da “densidade” (o termo é de Jorge Dias em 1957) do elemento popular em “todos os indivíduos de uma nação, sejam camponeses ou pastores, comerciantes, militares, advogados ou professores.”
Naturalmente que a densidade do tradicional varia segundo a classe social, mas é só uma questão de densidade e nunca de limites.2
De facto, tanto o desconhecimento quanto o aproveitamento (rimando, não por acaso, um com o outro) do manancial imenso da tradição popular portuguesa tem causado irrecuperáveis lesões no património nacional, não apenas em termos materiais mas também em termos sociais e culturais. Urge, por isso, um trabalho sistemático de investigação sobre essas fontes. De notar que, há já mais de vinte anos, Alan Dundes da Universidade de Berkeley, Califórnia, sem dúvida um dos maiores folcloristas mundiais, recebeu com efusivo aplauso um dos então poucos estudos consagrados à obra de Leite de Vasconcellos. Mais recentemente, o historiador José Mattoso insistiu publicamente na importância do estudo das “modalidades concretas através das quais se exprime a mentalidade popular”3 de forma a poder-se finalmente “medir o seu significado, descobrir o seu funcionamento, enfim, reconstituir as estruturas mentais em que elas se inserem.” E adianta o historiador referindo-se a este tipo de pesquisa:
Esta é, pois, uma daquelas investigações em ciências humanas que podem ser mais úteis aos historiadores porque lhes dá um fio condutor para se poderem mover no frondoso campo da cultura popular.
As palavras de Isabel Meireles (em Freud e Maquiavel, T.S.F., inícios de 2003) ao definir uma “estratégia europeia” para Portugal, sublinham a urgência de reforçar a “auto-estima e identidade cultural portuguesa” dignificando o país “pobre e pequeno”, o “país em diminutivo” (Alexandre O’ Neill) através desta dimensão patrimonial historicamente preterida e através da valorização da reserva tradicional de saberes.“Estamos todos com saudades de Portugal; saudade de nos reencontrarmos com Portugal”, afirma Carlos Magno, alguns programas depois, a propósito do número da revista Egoísta dedicado justamente a Portugal.
Esta questão que todos temos connosco mesmos (Alexandre O’Neill) não nos atola (a nós-IELT) no lamaçal da engonhice mas impele-nos a agir de forma a humildemente ir compensando (talvez sanando) traços da “fragilidade identitária” do país. Carlos Amaral Dias dá o exemplo: a celebração do dia de S. Valentim a 14 de Fevereiro em detrimento dos dias 12 e 13 de Junho, festejos de Santo António, o casamenteiro. Nós acrescentaríamos muitos outros exemplos desde a música à gastronomia, essa saciada e sadiamente recuperada e dignificada – hoje em dia, graças a pessoas como, por exemplo, José Alberto Ferreira, director artístico e programador do Festival Escrita na Paisagem, dedicado em 2006 a comer/ cheirar/ agricultura4.
Consideremos também o trabalho de recolha e exposição de contos e cantos tradicionais por um orgulhosamente-nosso-parceiro, José Barbieri, em www.memoriamedia.net – assistindo à generosa e descontraída dádiva de gente vivendo longe dos faróis que encandeiam e ofuscam, à tradição exposta através de meios inesperados, isto é, na rede (não de pesca nem de qualquer forma de captura) recentemente chamada Internet.
Acreditamos na fórmula que nos enforma: less is more (François Dagognet). Não ‘betonizamos’ o património, temo-lo em consideração, avaliando a fertilidade desse resto. Interessa-nos sobremaneira aquilo a que o antropólogo Mesquitela Lima chamou “a antropologia do trivial”. E o trivial bate-nos diariamente à porta.
Arredemos de vez a cultura de depressão nacional pois, como afirma Carlos Amaral Dias, “a cultura é o copo onde se põe o vinho dos afectos”.


