Próximas actividades
Outros IELTistas
Apoios
Quem somos
  • Voltar
Contactos
Telefone:21 790 83 00 (extensão 1241)
Fax:21 790 83 08
Secretaria:ielt@fcsh.unl.pt
 
Directora:Ana Paula Guimarães (aanaguimaraes@sapo.pt)
Subdirectores: Luísa de Medeiros (luisacarlos@mail.telepac.pt)
Secretária:Anabela Gonçalves (ielt@fcsh.unl.pt)
Assessoria científica:Ana Maria Freitas (mackayfreitas@netcabo.pt)
Editoras:Apenas Livros
Edições Colibri
Biblioteca e catalogação:Sara Diogo
 
Webmaster:webmaster@ielt.org
Morada

Instituto de Estudos de Literatura Tradicional
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Universidade Nova de Lisboa

Avenida de Berna, 26 C
1069-061 Lisboa

O IELT

Iniciámo-nos em finais dos anos 70 germinando a ideia de criar um instituto de estudos sobre matérias então ainda 'menorizadas' pela academia; culminando nos anos 80 com a criação de um Instituto, informal mas entusiasmado e empenhado; avançando em 2003 para o formato académico actual submetido a candidatura para financiamento plurianual da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Na esteira de preocupações relacionadas com o universo da literatura e das artes performativas, teatro, dança, oralidade literária (Pierre Jakez Hélias1), encetámos o nosso percurso naquilo a que María Zambrano chama a "modesta vida do folclore"2. Dito de outro modo, iniciámo-nos na humildade de uma disciplina à partida pouco formatada para a Universidade3, a "arte folclórica", "saber do povo", segundo Le Corbusier4, "aquilo que não é oficial", "a ciência do maior número" oposta à "arte de corte", "a arte da classe dominante".

Falamos de um saber plasmado sobre a vida, colaborando assiduamente no quotidiano mais ou menos sofrido: cantigas de desabafo ou desafio, cantos desatando o amor por conquistar ou o trabalho esforçado, laços, enredos, tramas de superstições e histórias, muitas histórias.

Estamos perante uma metáfora de destino fugidio, paralela, con- ou divergente em relação à grande e consagrada metáfora da “luz intelectual”5; perante matéria por excelência sustentada pela passagem do tempo, sujeita à registência (capacidade de resistir registando-se, de registar resistindo6) da areia e da ampulheta.

María Zambrano escreve sobre o saber dos não letrados, essa forma de escrita na areia do tempo:

Nada mais parecido com a areia devoradora da água, que a passagem do tempo que, às vezes, parece encobrir muitas coisas que morreram e que continuam a sua vida secretamente, quase clandestinamente, com uma continuidade que poderíamos chamar infra-histórica. Durante épocas inteiras não alcançam o nível visível do histórico; se se recordam, podem parecer ecos arcaicos, curiosidades, arqueologia.

Se ecos dessa fala (não letrada, porventura analfabeta7) aparecerem “ao vivo” – continua María Zambrano em 1944 – “é com a modesta vida do folclore, forma de existência anónima, dispersa e não sistemática, em períodos como este da cultura ocidental, em que o visível é tão esmagador que some na sombra mais opaca o que com ela não concorda.”8

Convenhamos. Passaram quase sessenta anos desde a escrita de Zambrano e o folclore já faz, mesmo em Portugal, parte dos curricula universitários e chama-se, na sua variante textual, literatura tradicional, de transmissão oral, oratura, etnoliteratura, oralidade literária, tradições populares. Seja.

Um notável folclorista americano, Alan Dundes, preocupava-se nos anos 60 em definir exactamente esta área de estudos fundamental para o estudo da visão do mundo, projecto que continua ainda hoje a desenvolver-se:

The term ‘folk’ can refer to any group of people whatsoever who share at least one common factor. It does not matter what the linking factor is – it could be a common occupation, language or religion – but what is important is that a group formed for whatever reason will have some traditions which it calls its own. In theory a group must consist of at least two persons, but generally most groups consist of many individuals. A member of the group may not know all other members, but he will probably know the common core of traditions belonging to the group, traditions which help the group have a sense of group identity 9.

Valerá a pena acentuar que, através desta tão flexível definição de folclore, um grupo pode ser tão extenso quanto uma nação e tão restrito quanto uma família ou um grupo profissional. Esta definição erradica do conceito qualquer restrição ao mundo camponês e pressupõe que tanto possa ser considerado folclore aquilo que é tradicionalmente transmitido quanto o material emergente nas sociedades contemporâneas. O espaço do folclore é, pois, amplo e extremamente abrangente. Não é um espaço secundário embora tenha sido recorrentemente 'secundarizado' pela cultura dominante. Funciona porventura como humilde caroço de um fruto cultural apetecível. Aparentando ser resto ou dejecto age subterraneamente como cerne de uma planta visível e reconhecida (veja-se a vertente do projecto de investigação FALAS DA TERRA, intitulada a partir do filme de Agnès Varda: OS RESPIGADORES E A RESPIGADORA).

Um outro lado da questão: a feição fundamentalista face à matéria 'folclórica' visando conservá-la de forma petrificada, perene e estaticamente, não concebe essa matéria como caroço destinado à frutificação, nem como raiz de planta visível e reconhecida, nem como "pedra viva" (Rabelais).

Em Portugal - Identidade e Diferença (2007), Guilherme d'Oliveira Martins recorre justamente à imagem da raiz para acentuar a sua feição nutriente e geradora da referida planta visível e notável:

Se a memória deve ser preservada, tem de o ser no sentido do equilíbrio (...) temos de conhecer e compreender as nossas raízes, que não devem fechar-se sobre si, mas devem abrir-se à diversidade10.

E mais adiante:

Se é importante preservar e saber como fazê-lo, tornou-se indispensável introduzir o elemento teleológico - por que razão e com que finalidade procedemos à preservação e à conservação, longe de uma perspectiva de antiquário ou de 'bric-à-brac', mas dando um valor social e histórico aos bens do património material e imaterial11.

Reflectindo sobre a exigência do "reconhecimento mútuo do património inerente às diversas tradições culturais" coexistentes, prontas a ser transmitidas "às futuras gerações"12:

Uma obra de arte, uma catedral ou uma choupana tradicional, um conto popular, as danças e os cantares, a língua e os dialectos, as obras de artesãos, a culinária ancestral - eis-nos perante expressões de valores que põem em contacto a história e a existência individual, a razão e a emoção, que constituem a matéria-prima de uma cultura de paz13.

Segundo carta de recomendação da UNESCO (Paris, 1989) a Literatura Tradicional/ Oral/ Popular faz parte do património universal da humanidade sendo por excelência veículo de afirmação da identidade e, simultaneamente, de aproximação entre os povos. Quase vinte anos depois, importa manter a ressalva: conceitos como identidade, tradição e nação são “entidades construídas, o mais das vezes sob a forma de oposições binárias que se traduzem quase inevitavelmente sob a forma de atitudes hostis em relação ao Outro”, palavras de José Augusto Mourão numa abordagem ao “caos cultural da mundialização – entre as águas insondáveis da tradição e da modernidade”. Importa acentuar, desde o princípio: projectos destes correm riscos de tocar algum fundamentalismo: o de visar – sem cobro – “a reabilitação da identidade”, “a reabilitação da tradição”, “a autenticidade”, “o apego às raízes”. Que risco? Inteiramente de acordo: o de projectar sobre o passado um “futuro radioso” fabricado pela ideologia.

As palavras do sociólogo Manuel Lisboa no projecto deste Instituto, FALAS DA TERRA, sobre NATUREZA E AMBIENTE NA TRADIÇÃO POPULAR PORTUGUESA (Lisboa, Colibri/ Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, 2004) dão voz aos nossos objectivos tendo em conta recomendações e riscos:

Num tempo em que os limites da técnica e da ciência nos remetem para a necessidade de redescobrir novas fórmulas de vida numa escala mais humana, a literatura tradicional oral pode ser uma fonte inesgotável para a Sociologia: enquanto campo de observação para a análise do tecido social e como fonte inspiradora de estudos comparativos sobre as práticas e as aspirações sociais. [...];

Falas da Terra contém os sinais desse tempo longo, de um conhecimento profundo, acumulado ao longo de milénios pela prática de agentes sociais diferenciados, quase sempre sem voz, mas que marcam os ritmos do presente. Sinais, cuja interpretação nos permite compreender melhor as dinâmicas sociais actuais, nos seus avanços e resistências à mudança, ao nível do material, do social, do político e do cultural. [...] O conhecimento milenar inscrito na literatura tradicional decorre de uma prática, reflectida a partir da acção na procura de soluções concretas para problemas. Poder-lhes-á faltar a reflexividade cartesiana, mas sobra-lhe a civilização material do quotidiano. [...]

O confronto com este mundo menos tecnicista, que hoje nos parece mais à escala humana, ajuda-nos a reflectir comparativamente o presente e leva-nos a questionar se, por vezes, não temos sido excessivamente cúmplices com alguns mitos da modernidade, deixando que nos tirem o que, mesmo arcaico, foi aperfeiçoado ao longo de milénios para nos servir, sem que os substitutos estejam devidamente testados. [...] Não creio que se construa o amanhã recuando para o passado, mas talvez possamos reaprender com os antigos a sabedoria do equilíbrio com a natureza, que é, sem dúvida, um valor do futuro.

Além do mais, situando-se – segundo designação da F.C.T. – na área da PROMOÇÃO GERAL DOS CONHECIMENTOS, visa este Instituto entusiasmar para a reflexão sobre o ensino desta disciplina a nível escolar e universitário (veja-se a vertente A PROBLEMÁTICA DO ENSINO DA LITERATURA E DA CULTURA NO ENSINO SECUNDÁRIO dentro do projecto de investigação sobre TRADIÇÃO E MODERNIDADE) bem como dinamizar acções de valorização da cultura popular, local, eventualmente subversiva, nomeadamente quando, perante produtos da cultura de massa, imposta e homogeneizante, a passa a usar como partitura ou fermento de novas criações.

Segundo John Fiske:

The study of popular culture requires the study not only of the cultural commodities out of which it is made, but also of the ways that people use them. The latter are are far more creative and varied than the former14.

Acentua-se, desde logo, a vastidão do âmbito uma vez que não se deverá ter em conta apenas as culturas de comunidades rurais mas também as do meio urbano e suburbano onde diversos indivíduos, grupos profissionais e instituições praticam e documentam aspectos particulares das culturas populares no seu sentido mais lato. Em 2001-2002 foram realizadas pesquisas sobre, por exemplo, a comunidade de Chelas, sobre rap, hip-hop e fado; veja-se também o trabalho realizado e a ser prosseguido nas cadeias e hospitais (Vd. TRADIÇÃO E MODERNIDADE).

A vertente OS RESPIGADORES E A RESPIGADORA (de FALAS DA TERRA) joga com um pressuposto mais subtil: a disciplina de literatura tradicional leccionada cria o próprio resto, uma vez que inverte o processo de desvalorização e esquecimento destes saberes (restos) oriundos de um lugar silenciado, lamuriado ou infame (a ambiguidade da expressão: “santa terrinha”). As próprias sessões lectivas acabam por resultar numa situação de recobro onde o património (em geral, sem cisões entre cultural, ambiental, monumental ou textual) convalesce aliviando o conflito intergeracional. Acontecem trabalhos de recolha junto de pais e avós tal com acontece voltarem à escola as terceiras, inúteis (e frequentemente analfabetas) gerações mais velhas. Veja-se a este respeito alguns aspectos das vertentes do projecto TRADIÇÃO E MODERNIDADE, as quais também contemplam a entrada dos jovens adolescentes nas instituições universitárias ‘ensinando’ a doutores, editores, professores, estudantes e pais questões relacionadas com a escrita para jovens (carência de literatura para adolescentes em Portugal, aspecto assinalado por jovens numa mesa redonda em Maio de 2001), com a comunicação electrónica e mediática: a carta, o registo escrito sobrevivente em msn e mensagem de telemóvel, hoje espaço de aforismos, anedotário, citações. Recorde-se a reflexão em torno destas questões na sessão “Cartas Nossas” durante a 3ª Maratona de Leitura na Culturgest. Veja-se ainda Ana Paula Guimarães, Um Balde de Água Fria – Episódios de Vida e de Conto (Lisboa, Apenas Livros, 2003), uma reflexão sobre instrumentos do maravilhoso (Todorov) desde a varinha de condão ao telemóvel.

Tenta-se assim, por várias vias, encorajar o respeito pela especificidade da cultura tradicional/popular (da qual os estudantes da licenciatura parecem inicialmente distantes e envergonhados; a qual sintomaticamente começa a atrair investigadores, interessados em pós-graduação, mestrado, doutoramento e pós-doutoramento), vendo nela um vasto campo de acção não apenas a nível da recolha e museificação mas também do tratamento de dados com vista a conhecer rigorosamente o material preservado de forma a produzir sobre ele outros objectos culturais (dissertações académicas, publicações em livro e vídeo, instalações, eventos) que alterem a perspectiva marginal(izada) que actualmente ainda detêm não só aos olhos do grande público mas também ao nível da comunidade científica (Cantos, contos... e que mais).

Nesta perspectiva foi, no ano lectivo (2002-3), criado na F.C.S.H. um ‘minor’ em LITERATURA TRADICIONAL E PATRIMÓNIO que contou com a colaboração (graciosa nos anos lectivos de 2002-3, 2003-4) de membros do Instituto. A disciplina de Herança Tradicional na Literatura Infanto-Juvenil foi inteiramente assegurada por Fátima Ribeiro de Medeiros (professora do ensino secundário em Setúbal) no ano de 2002-3. Os membros do IELT participam, aliás, frequentemente no trabalho lectivo dos seminários de licenciatura, pós-graduação, mestrado e doutoramento desde então até ao presente. Em 2007 decorreu um curso sobre tradições, literatura e cultura popular na Biblioteca de Algés ("Traz outras vozes também") visando inaugurar uma série de cursos livres a realizar pelo país e eventualmente no estrangeiro.

Temos publicado inúmeros livros e folhetos de cordel (ensaios, recolhas), CDs e DVDs. Muitos reúnem-se em colecções coordenadas por membros do IELT: "a IELTsar se vai ao longe" (edições Colibri); "à mão de respigar", "Redes e Enredos", "Bilhetes de Identidade", "Teatro no Cordel" (Apenas Livros). Registamos também, em DVD, sessões, eventos, happenings realizados desde 1979 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e fora da Faculdade em diversos locais do país.

O grupo coral Cramol (mulheres de origem urbana que retomam cantos tradicionais, polifonias «a capella», com acompanhamento do adufe, por exemplo) tem, desde há anos e sempre graciosamente, colaborado em inúmeras 'performances' relacionadas com os projectos desenvolvidos. A partir da parceria com a Câmara Municipal de Mora (2003-4) contamos também com a assídua colaboração de Joaninha d'Almeida, contadora de histórias, realizando neste momento a sua dissertação de mestrado de Literatura Tradicional. O grupo de contadores de histórias, Contabandistas (representado no IELT pela doutoranda, apoiada pela FCT, Cláudia Fonseca), tem também partilhado connosco quase semanalmente o espaço (sub) urbano e rural (inter) nacional.

Alcance das actividades
  1. Dentro da comunidade estudantil de Lisboa (sobretudo actividades realizadas em 2004 dentro dos Auditórios da FCSH-UNL).
  2. Fora da Faculdade, em outros espaços culturais fora de Lisboa (sobretudo a partir de 2005): Braga, Bragança, Castelo Branco, Coimbra, Évora, Faro, Mangualde, Miranda do Douro, Tavira, assim como Mourilhe e Sendim (Trás-os-Montes). Passeios a pé incluindo exposições sobre actividades agrícolas, escrita literária e poesia tradicional (Montemor-o-Novo). Também em Açores e Madeira. Contos e tradições em hospitais e prisões.
  3. Internacionalmente: Brasil, Eslovénia, Espanha, EUA, Finlândia, França, Moçambique, Portugal, Reino Unido, Sérvia, Timor Lorosae, Zimbabwe.
Programas de Investigação

Estes grupos estão interligados numa rede e não funcionam de forma isolada e compartimentada. Embora cada grupo apresente os seus projectos e actividades, há que ter em conta que estes se relacionam entre si.

Palavras-chave
património imaterial/ material e (re)criação
tradição, natureza, ambiente, história(s)
memória/ literatura oral/ oralidade literária
popular/ pop/ popularizado/ popularizante
Sites

Foram construídos e têm sido desenvolvidos pelo IELT dois sites relativos a um projecto de construir uma revista Teia de Aranha e/ou um Museu da Tradição Oral. Um deles visa proporcionar a vários países (Portugal, Espanha, França, Macau, Timor, Cabo Verde, Moçambique, etc) a reflexão sobre a questão da escala, o "respeito pela diferença" (publicado em português, espanhol e inglês). O outro assume a forma de revista-video editando momentos da tradição oral recolhida e dinamizada pelos recriadores/dinamizadores/ contadores de histórias de todas as idades.

Fotos de contabandistas
grandePEQUENO

Foi construído e tem sido desenvolvido pelo IELT um site relativo a um projecto que substitui por agora a ideia de construir um site/revista Teia de Aranha ou um Museu da Tradição Oral (nomeadamente por falta de instalações) e que visa proporcionar a vários países (Portugal, Espanha, Macau, Timor, Angola, Moçambique, França, etc) a reflexão sobre a questão da escala, o "respeito pela diferença". Projecto publicado em português, espanhol e inglês.

Projecto MEMORIAMEDIA

Temos em curso o projecto MEMORIAMEDIA (www.memoriamedia.net - contos audio, contos video, revista-vídeo, canal webtv e artes cénicas)
O projecto MEMORIAMEDIA tem como objectivo fixar por meios multimédia momentos da tradição oral, organizar e divulgar os conteúdos adquiridos no formato web-vídeo. Estão já colocados online mais de duzentos vídeos. O projecto está a servir de referência a diversos sites e blogues dedicados à pedagogia e à formação/certificação de adultos por representar uma ferramenta para a compreensão e exercício da expressão oral.
O projecto está a recolher momentos de tradição oral por todo o país, a proceder às respectivas edição vídeo, transcrição e análise de conteúdo dos mesmos. Também são recolhidas entrevistas e histórias de vida dos informantes. Os conteúdos são publicados e divulgados no site www.memoriamedia.net.
Actualmente, todos os vídeos com momentos de tradição oral e entrevistas são partilháveis livremente através do serviço Sapo.vídeos (http://videos.sapo.pt/memoriamedia) com quem foi realizado um acordo de colaboração. No âmbito deste acordo foi criado um canal de webtv - directo que divulga exclusivamente conteúdos relacionados com a tradição oral de todo o mundo.
O projecto MEMORIAMEDIA está ainda a recolher em vídeo momentos de tradição oral e de criação a partir da tradição oral através da cobertura de diversos eventos dedicados ao tema em todo o país. Estes eventos são editados e publicados sob a forma de revista-vídeo no site do projecto com periodicidade mensal.

MEMORIAMEDIA tem o apoio financeiro de Fundação Calouste Gulbenkian, FCT através do IELT, ADRAL Agência de Desenvolvimento Regional do Alentejo, EDOCC pour la coesion des territoires de l'Europe du Sud, OMEDITOUD Observatoire Méditerranéen  pour le Tourisme Durable.

Blog grandePEQUENO
Sete Mares

Blog Sete Mares (Manutenção regular do blog de poesia e outros estados de alma por Jorge Castro). Conta já com mais de 40.000 visitantes, onde, ao longo de 2005, foram publicadas várias dezenas de poemas inéditos.

Revistas
  • a partir do nº 11/12 – 2005/2006: ELO – Estudos de Literatura Oral Centro de Estudos Ataíde Oliveira – Universidade do Algarve. Direcção: Isabel Cardigos
Apoios
ADRAL - Agência de Desenvolvimento Regional do Alentejo
Fundação Calouste Gulbenkian
Fundação Luso-Americana
Fundação para a Ciência e Tecnologia

Financiamento Plurianual, Fundo de Apoio à Comunidade Científica

Interreg III B MEDOCC (Cooperação Transnacional)
OMEDITOUD - Observatoire Méditerranéen pour le Tourisme Durable

Câmaras Municipais

Sobre os Programas de Investigação

Estes muitos projectos e propostas (realizados e a realizar por membros do IELT, frequentemente em contacto ou com colaboração de especialistas de outras áreas do saber e de outras instituições) visam revitalizar e revalorizar culturas populares, silenciadas e silenciosas, culturas que, nas palavras do sociólogo João Teixeira Lopes, “se autocensuram por vergonha cultural”.

Na nossa experiência de campo ora deparámos com a interiorização de um interdito, ora insistentemente com a impressão de “sem-valia”.

– Mas que anda você a fazer estudando estas coisas? Isto interessa a alguém?

Convenhamos. Interessou sobremaneira à política cultural do Estado Novo a recuperação destas matérias referenciadas então como suporte da identidade nacional, na sua feição tão pitoresca quanto imperialista. Palavras como folclore e etnografia ficaram doravante contaminadas (por isso se justifica o nosso título "Tradição e Modernidade" para um projecto afim ao denominado "Folclore e Literatura" pela mão de Wolfgang Mieder, na Universidade de Vermont, E.U.A.15).

Sobrevive o interesse mais ou menos caseiro, recentemente também académico, pelo estudo da “densidade” (o termo é de Jorge Dias em 1957) do elemento popular em “todos os indivíduos de uma nação, sejam camponeses ou pastores, comerciantes, militares, advogados ou professores.”

Naturalmente que a densidade do tradicional varia segundo a classe social, mas é só uma questão de densidade e nunca de limites.16

De facto, tanto o desconhecimento quanto o aproveitamento (rimando, não por acaso, um com o outro) do manancial imenso da tradição popular portuguesa tem causado irrecuperáveis lesões no património nacional, não apenas em termos materiais mas também em termos sociais e culturais. Urge, por isso, um trabalho sistemático de investigação sobre essas fontes. De notar que, há já mais de vinte anos, Alan Dundes da Universidade de Berkeley, Califórnia, sem dúvida um dos maiores folcloristas mundiais, recebeu com efusivo aplauso um dos então poucos estudos consagrados à obra de Leite de Vasconcellos. Mais recentemente, o historiador José Mattoso insistiu publicamente na importância do estudo das “modalidades concretas através das quais se exprime a mentalidade popular”17 de forma a poder-se finalmente “medir o seu significado, descobrir o seu funcionamento, enfim, reconstituir as estruturas mentais em que elas se inserem.” E adianta o historiador referindo-se a este tipo de pesquisa:

Esta é, pois, uma daquelas investigações em ciências humanas que podem ser mais úteis aos historiadores porque lhes dá um fio condutor para se poderem mover no frondoso campo da cultura popular.

As palavras de Isabel Meireles (em Freud e Maquiavel, T.S.F., inícios de 2003) ao definir uma “estratégia europeia” para Portugal, sublinham a urgência de reforçar a “auto-estima e identidade cultural portuguesa” dignificando o país “pobre e pequeno”, o “país em diminutivo” (Alexandre O’ Neill) através desta dimensão patrimonial historicamente preterida e através da valorização da reserva tradicional de saberes. “Estamos todos com saudades de Portugal; saudade de nos reencontrarmos com Portugal”, afirma Carlos Magno, alguns programas depois, a propósito do número da revista Egoísta dedicado justamente a Portugal.

Esta questão que todos temos connosco mesmos (Alexandre O’Neill) não nos atola (a nós-IELT) no lamaçal da engonhice mas impele-nos a agir de forma a humildemente ir compensando (talvez sanando) traços da “fragilidade identitária” do país. Carlos Amaral Dias dá o exemplo: a celebração do dia de S. Valentim a 14 de Fevereiro em detrimento dos dias 12 e 13 de Junho, festejos de Santo António, o casamenteiro. Nós acrescentaríamos muitos outros exemplos desde a música à gastronomia, essa saciada e sadiamente recuperada e dignificada – hoje em dia, graças a pessoas como, por exemplo, José Alberto Ferreira, director artístico e programador do Festival Escrita na Paisagem, dedicado em 2006 a comer/ cheirar/ agricultura18.

Consideremos também o trabalho de recolha e exposição de contos e cantos tradicionais por um orgulhosamente-nosso-parceiro, José Barbieri, em www.memoriamedia.net – assistindo à generosa e descontraída dádiva de gente vivendo longe dos faróis que encandeiam e ofuscam, à tradição exposta através de meios inesperados, isto é, na rede (não de pesca nem de qualquer forma de captura) recentemente chamada Internet.

Acreditamos na fórmula que nos enforma: less is more (François Dagognet). Não ‘betonizamos’ o património, temo-lo em consideração, avaliando a fertilidade desse resto. Interessa-nos sobremaneira aquilo a que o antropólogo Mesquitela Lima chamou “a antropologia do trivial”. E o trivial bate-nos diariamente à porta.

Arredemos de vez a cultura de depressão nacional pois, como afirma Carlos Amaral Dias, “a cultura é o copo onde se põe o vinho dos afectos”.

Leiamos o poema de Manoel de Barros em Retrato do Artista quando Coisa (1998):

Aprendo com abelhas mais do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata - cresce de importância para o meu
olho.
Ainda não entendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão -
antes que das coisas celestiais.
Pessoas parecidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.

Abre o nosso site este poema de Manoel de Barros, "um olhar para o ser menor, para o insignificante", um olhar para baixo dirigido às "soberbas coisas ínfimas", às vezes "tão parecidas de abandono". Recordemos agora aqueles versos do seu Livro sobre Nada (1998):

É no ínfimo que eu vejo
a exuberância.

IELTsaremos, pois, assim, apreciando as "coisinhas do chão", considerando as formigas exuberantes e convivendo com gigantones na nossa praça (... espreite e veja como nos descobrimos a gostar de reflectir sobre escalas e tamanhos, distâncias e diferenças em www.grandepequeno.com).

Reescritemos pelo caminho, tentando caminhar para uma distância que será o nosso longe, o que está mais perto. O "ser menor". O elemento "ínfimo" no qual não estamos habituados a reparar. Repararemos a falta de não ter reparado antes. Ieltsaremos.

Iremos de longe. Como se o longe nos arrancasse à banalidade do próximo.

Terminamos agora com um conto de outro miúdo, um pinto: o Pito-Suro também chamado de Pinto Borrachudo ou Pinto Calçudo, a caminho do Palácio do Rei, reclamando de volta o grão de milho, a bolsa das moedas, o púcaro de prata ou o brinco d'oiro a que tem direito, usando da sua sempre disponível argúcia e exuberância, engolindo rio, raposa, pinheiro, lobo, coruja, tudo o que lhe trava o propósito de ser desagravada a falta. Farto de lhe aturar as tropelias e dos prejuízos causados pela insistência na reparação da justiça, o Rei manda-o para casa e devolve-lhe o bem pretendido.

Na versão IELT, o pinto - o menor entre os menores dos seres da criação - vai andando e cantando encorajado pelo vigor dos provérbios tradicionais (letra de Ana Freitas, música do próprio pinto):

IELT que vai à frente alumia duas vezes.
No IELTsar é que está o ganho.
A IELTsar se vai longe.

  • 1Pierre Jakez Hélias, Le Quêteur de mémoire. Quarante ans de recherches sur les mythes et la civilisation bretonne. Paris, Plon, 1990.
  • 2María Zambrano, A Metáfora do Coração. Lisboa, Assírio e Alvim, 1993, p.20 (subl. nosso).
  • 3A folclorística ter-se-á institucionalizado apenas no século XIX embora se lhe possa encontrar precursores: Herder (Stimmen der Völker in Liedern, 1778-79), irmãos Grimm (Kinder und Hausmärchen, 1812) e finalmente para a cunhagem do termo, William Thoms em 1846.
  • 4Maneira de Pensar o Urbanismo. Lisboa, Publicações Europa América, 1969, pp. 197-8.
  • 5María Zambrano, Ibidem.
  • 6Proposta de Ana Paula Guimarães, Olhos, Coração e Mãos no Cancioneiro popular Português. Lisboa, Círculo de Leitores, 1992.
  • 7Segundo a quadra, a escrita imediatamente se desfaz a si própria como que para permanecer secreta: “Pus-me a fazer na areia/ O retrato do meu bem/ Escrevi, apaguei logo/ Com medo que visse alguém.” A palavra dita é inapagável tanto enquanto sentença oriental (“Uma palavra é um pássaro que se solta de uma gaiola”) como em inúmeras situações da nossa tradição: “O meu amor já me disse/ Já me deu toda a palavra” (José Leite de Vasconcellos, Cancioneiro Popular Português, vol. I. Coimbra, Universidade, 1975).
  • 8María Zambrano, Ibidem.
  • 9Citado por Alan Dundes, Interpreting Folklore. Bloomington, Indiana University Press, 1980, p.7 (o segundo sublinhado é nosso).
  • 10Lisboa, Gradiva, 2007, p.9.
  • 11Idem, p.255
  • 12Idem, p.257
  • 13Idem, p.258
  • 14Understanding Popular Culture. London, Routledge, p.15.
  • 15Best of All Possible Friends – Three Decades of Correspondance Between Folklorists Alan Dundes and Wolfgang Mieder (org. Wolfgang Mieder). University of Vermont, 2006, p.9.
  • 16Jorge Dias, “Etnologia, Etnografia, Volkskunde e Folclore”, separata de Douro Litoral – Boletim da Comissão Litoral de Etnografia e História, oitava série, I-II. Porto, 1957.
  • 17Prefácio de José Mattoso Olhos, Coração e Mãos no Cancioneiro Popular Português de Ana Paula Guimarães. Lisboa, Círculo de Leitores, 1992, p.9.
  • 18Organizado em colaboração com o Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT), da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o Encontro Representações convida investigadores, académicos e artistas a reflectir e debater, em campos como a literatura e as artes, a forma como se representam os três conceitos em torno dos quais o Festival Escrita na Paisagem se tematiza: comer, cheirar, agricultura. Com um leque variado de contribuições, de perfil académico e artístico, integrando livros, debates, mesas-redondas, workshops, animação, uma prova de vinhos, uma exposição, exibição de filmes e espectáculos de música e performance, o Encontro Representações explora campos como a segurança alimentar, o papel dos alimentos nos cancioneiros, comer e ser comido nos contos tradicionais. Constituindo-se como uma plataforma de reflexão multidisciplinar, capaz de evidenciar o alcance deste campo de problematização e descoberta, o Encontro Representações privilegia o rigor científico sem deixar de promover abordagens diversificadas e plurais. (http://www.escritanapaisagem.net/2006/geral.html)
© 2008 IELT. Todos os direitos reservados. | Pedido de informações | Webmaster
Algumas ilustrações neste site da autoria de Danuta Wojciechowska.